Maria, Mãe do Pai?



Confesso que sinto uma certa acídia a palrear sobre a infindável “cantilena” da santidade ou não, de Maria. Assunto para ociosos e soberbos.
Mas cá tenho eu um “cadinho” de dúvida sobre a Nossa Santíssima Mãe. Não me refiro a sua santidade, dada a sua inquestionável condição de Mãe de Deus, intemerata e pura. Assim como, concebida, por graça do Senhor, sem nódoas ou máculas, plena das virtudes Divinas e do amor do Pai.
Me balança a dúvida sobre a “paternidade” de Maria!

Sabemos da justa, reta e santa união entre Joaquim e Ana, e da sua perfeita e pura observação dos preceitos divinos e da sua inexorável fidelidade à fé em Deus.
Nada a observar!
No entanto, cumpre refletir sobre a participação Divina nesta realidade mística, ou ação miraculosa.

Vamos recordar que a concepção de Maria ocorre com a sabida intervenção de Deus, conforme foi claramente anunciada pelo Arcanjo Gabriel: “Ave cheia de graça, o Senhor “é” contigo!”
Deus é aquele que “é”! E o “é” eternamente. Desde sempre, sempre, para sempre!
Nós, frutos de seu Amor e Graça, temos sua fragrância e perfume de santidade impregnados em nossa alma e espírito, por Ele concedidos. Crentes ou não! Mas não o temos “em nós”.
Recebemos Seu amor, sua graça, sua misericórdia, por vezes até o seu perdão, mas não o temos em nós como depositários da Trindade.

O Divino e Sagrado Deus, Uno e Trino, não repousa na miséria humana.
Nossas imperfeições e fragilidades não suportariam a infinitude do Altíssimo em um “vaso” tão frágil, composto para receber de Deus apenas as emanações do seu amor. Não para contê-las! Romperíamos como abóboras ao fogo, ardendo em agonia nas chamas inesgotáveis do amor de Deus.

Deus nos privilegia com a sua misericórdia, concedendo-nos dons que nos distinguem do resto da criação, fazendo de nós, humanos, obra cuidadosamente acabada. Finamente concluída a partir do barro ordinário do qual surgiu toda a criação. E assim, para nos performar como atores no seu Plano Divino, nos pôs pouco abaixo dos anjos, a partilhar do seu amor como amigos, assim desejados.

E Maria?

Filha de Joaquim e Ana, Maria, a “cheia de graça” no dizer do Anjo, comportava até o próprio Deus.
Ah, sim, podemos palrear sobre a “casualidade” do linguajar Angelico. Afinal, Anjos nada melhor tem a fazer do que trocar palavrinhas avulsas com meninas desacompanhadas: “E aí, Mari, belê?”...

O Anjo não anuncia à María! Não dizemos a algum passante “Bom dia, saibas que estais vivo”! Não é Maria a destinatária da mensagem do Anjo, mas nós, parvos e estultos frutos dos jardins do Senhor. É a nós que o Anjo ilumina com a compreensão das dimensões de Maria! É no anúncio do Anjo que nos é revelado a presença de Deus em Maria, em toda a sua Honra, Glória e Divindade!
Em Maria está o Senhor! Não como um desavisado passante, ou como uma inconveniente visita inesperada. Não!
Deus habita em Maria! Assim como o pai habita em seu filho!

Não brotamos do solo, como morangos ou mostardas. Ainda que criaturas, somos gerados no ventre puro de nossas mães, e nele semeados pelas generosas heranças de nossos pais.
De onde vem a Gratia Plena? De que fonte? De que matriz?
Onde e quando Joaquim obteve a infinita pureza, a gloriosa entrega, o incontível amor, ou a compreensão infinita?
De onde vieram tais dons, em uma tal profusão, dimensão e abrangência?

Maria traz em si o legado inequívoco de David, presente em Joaquim e Anna com suas profundas ligações com as tradições religiosas da Tribo de Judá, e sua absoluta entrega ao serviço do Senhor.
Maria resulta de Joaquim e Anna, mas por ação direta de Deus, coligindo suas heranças e tradições, permeadas pelas maravilhas e infinitudes do Pai Celestial.

Na contenção graciosa da concepção de Maria, conformou-se a nova arca para a perfeita e definitiva aliança! Aquela que conteria toda honra e toda glória da trindade, na pessoa do filho, para firma-la na plenitude dos tempos!
“Christus Persona Dei”, celebraria em nossa existência a perfeita e definitiva Páscoa, restaurando o caminho da salvação pelo qual retornamos a presença do Pai!

Com Maria, somos redimidos de toda miséria e pequenez pela qual fomos tentados e reduzidos a porção morta da ausência de fé;
Por Maria, a Criação, resguardada do vazio pela plena e abundante Graça de Deus, realiza, reata o fio criador na própria geração da Mater Dei!
Em Maria, nos é dado conhecer o Mistério da Criação, nela se realizando a geração do “Corpus, Anima et Spiritus Dei”! Nela, consolida-se o Plano Salvífico de Deus!

São Luiz Maria Grignion de Montfort, compreendendo o seu profundo comprometimento com a Redenção, revelou verdades divinamente inspiradas, que nos permitem, ainda hoje, perceber uma parte do mistério do Plano de Deus, compreendendo algumas das dimensões de Maria. Dizia o vigoroso santo Mariano, que « Deus congregavit omnes aquas et vocavit mare, et sic congregavit omnes gratias et vocavit Mariam »! ("Deus, juntou todas as águas e as chamou de mar; e assim, juntou todas as graças e as chamou de Maria”!)

Reencontrar sua trilha, percorrer seus mistérios, compreender seus exemplos, perceber sua entrega, e fazer-se seu por inteiro, são a linha que nos reata ao delicado brocado da Obra do Senhor. Nessa suave e delicada filigrana, se realizou a redenção do gênero humano; reuniu-se mais uma vez céus e terra; conformou-se a nova e eterna aliança, elevando a criatura à Sacrário da geração do próprio Criador.
Em Maria, louvamos à Deus!
Deus o abençoe!

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